Profa. Ms Gizele Monteiro
Será que a Dança pode corrigir desvios posturais de membros inferiores em crianças?
O estudo a seguir mostra como a dança pode contribuir para desvios posturais ligados a redução na amplitude de movimento de um determinado segmento corporal.
Artigo disponível no site: http://www.rbo.org.br/materia.asp?mt=350&idIdioma=1
Influência da prática do balé nas rotações dos quadris Estudo realizado em crianças e adolescentes na faixa etária de 6 a 17 anos
EVANDRO JOS GUILA GIS, LUIZ ANTNIO MUNHOZ DA CUNHA, RALF KLASSEN
Introdução
É comum no consultório do ortopedista a alteração da marcha, na qual as crianças apresentam a ponta dos pés voltada para dentro. Isso produz um defeito cosmético que preocupa os pais, principalmente pela possibilidade de seqüelas futuras. A causa mais freqüente de rotação interna dos membros inferiores está relacionada ao aumento da anteversão do colo femoral(4,11) que, na maioria das vezes, está dentro dos limites da normalidade(3,4,8,9,11,14-17).

O tratamento das deformidades em rotação interna com órteses ou exercícios físicos regulares não encontra na literatura embasamento que comprove sua eficácia para reduzir os valores do ângulo de anteversão do colo femoral(6). Mesmo assim, alguns profissionais indicam a prática da dança como “terapêutica” dessa deformidade, baseados simplesmente no fato de bailarinas andarem em rotação externa.
O objetivo deste estudo é demonstrar a influência da prática do balé clássico, em diferentes faixas etárias e níveis de aprendizado, nos movimentos de rotações dos quadris.
METODOLOGIA
Foram avaliadas a rotação interna e externa dos quadris de 190 alunas de balé clássico de uma renomada escola estatal, com idades entre 6 e 17 anos e em diferentes níveis de aprendizado.

Nessa escola, a idade mínima do aluno para iniciar seus estudos é de 6 anos. As mudanças de nível ocorrem, após as devidas avaliações teórico-práticas, exceto para o aperfeiçoamento, que não tem duração determinada.
O tempo de prática semanal da dança modifica-se de acordo com o nível de especialização, conforme o quadro 1.
O exame das rotações do quadril foi realizado sempre pelo mesmo examinador, utilizando-se um goniômetro especial-mente desenvolvido para esse fim (figs. 1 e 2).
As medidas obtidas foram comparadas com as de grupocontrole de 208 meninas, não praticamentes de balé, distribuídas na mesma faixa etária e pertencentes a uma escola pública com as mesmas características socioeconômicas do grupo de bailarinas.
O exame das rotações dos quadris foi realizado com as alunas em decúbito ventral com os quadris em extensão e os joelhos em flexão de 90º sobre a placa menor, sendo a perna do membro examinado apoiada ao longo da placa maior. A rotação interna (RI) e a externa (RE) dos quadris foram mensuradas com o goniômetro adaptado ao respectivo lado da placa.
As alunas do curso de balé e as do grupo-controle foram divididas em quatro faixas etárias descritas na tabela 1. A distribuição das alunas de dança e das alunas do grupo-controle em relação à faixa etária está na tabela 2. O tempo de prática da dança por grupo etário está na tabela 3.

Os valores das rotações obtidas nos exames das bailarinas foram comparados entre si (grupos 1 a 4) e cada grupo etário das bailarinas foi comparado com o similar das alunas do grupo-controle. Assim, aplicamos o teste t de Student, ao nível de significância p < 0,05, para avaliação das médias das rotações do quadril.
RESULTADOS
A avaliação das rotações dos quadris dos lados direito e esquerdo de ambos os grupos, bailarinas e controle, não mostrou diferença estatisticamente significante. Foram, então, consideradas para finalidade de resultado apenas a RE e a RI dos quadris. Os resultados obtidos da avaliação entre os grupos 1 e 4 das bailarinas estão nas tabelas 4 a 6.
Ao comparar os grupos etários 1 e 2, observamos que existe aumento das rotações externas e redução das rotações internas no grupo etário 2. Ao comparar os grupos etários 2 e 3, não observamos diferenças significativas nos valores das rotações externas; porém, existe diferença estatisticamente significativa nos valores das rotações internas.

A avaliação das rotações dos quadris entre os grupos 3 e 4 das bailarinas mostra que a RI diminui, como nas avaliações anteriores, e a RE sofre acréscimo.
Os resultados obtidos da comparação das rotações entre o grupo de bailarinas e o grupo-controle estão nas tabelas 7 a 10.
Ao comparar o grupo etário 1 entre bailarinas e o grupocontrole, observamos que não houve modificação estatisticamente significativa das rotações externas, porém houve mudanças estatisticamente significativas das rotações internas.


A avaliação das rotações no grupo 2 mostra RE maior e RI menor no grupo das bailarinas quando comparadas com o grupo-controle.
Na comparação entre as bailarinas e o grupo-controle persistem RE maior e RI menor para as bailarinas.
No grupo 4, a diferença entre os valores da RE e RI está aumentada, com RE maior e RI menor para o grupo das bailarinas.
DISCUSSÃO
As cinco posições básicas do balé(10,13) (fig. 3) exigem rotação externa importante dos membros inferiores. É considerada ideal a rotação externa de 90º.
No século XVII o balé iniciava sua participação em pal-cos elevados, onde os espectadores ficavam à frente dos dançarinos, ao contrário dos antigos espaços cênicos em forma de arena, onde havia, então, a necessidade de o bailarino posicionar-se sempre de frente para o público, mesmo quando se deslocava de um lado para o outro. A solução foi a posição em RE dos membros inferiores. Pierre Beauchamp então descreveu em 1700 as cinco posições básicas em RE que vigoram até hoje no balé clássico(12).
A articulação do quadril é do tipo esférico, revestida por uma cápsula articular e por ligamentos como: o iliofemoral e ligamentos acessórios (ligamentos pubofemoral e isquio-femoral)(5). A cápsula é mais espessa nas regiões proximal e anterior da articulação, onde é solicitada maior resistência, principalmente nos movimentos de rotação externa, quando existe maior tensão. A cápsula posterior é delgada e frouxa, não opondo resistência à RI, sendo a musculatura rotadora externa do quadril o principal elemento que restringe a RI.
O grau de anteversão do colo femoral não é alterado por exercícios físicos ou órteses(1,6). Bauman et al.(1) comprovaram que, apesar da redução progressiva da rotação interna e aumento progressivo da rotação externa, não houve modificação do ângulo de anteversão femoral. Porém, existem estruturas articulares que podem ser modificadas e alterar a amplitude de movimento da articulação do quadril, tais como: cápsula, ligamentos e musculatura(2,7).
Nosso estudo comprova que nas bailarinas de menor faixa etária (grupo 1) existe diminuição da rotação interna em relação ao grupo-controle e isto pode estar relacionado ao fortalecimento da musculatura posterior (rotadores externos). Nessa mesma faixa etária a rotação externa não está alterada porque o tempo de alongamento das estruturas anteriores pode não ter sido suficiente para modificar a amplitude desse movimento.
O aumento da RE mostrado nas tabelas 4-6 pode ser considerado como conseqüência do alongamento da cápsula articular anterior e do ligamento iliofemoral, como já descrito por Bauman et al.(1).
A rotação interna sofre redução progressiva com a idade, tanto no grupo de bailarinas como no grupo-controle, o que concorda com as observações de Bauman et al.(1) e Svenningsen et al.(16).
Nas dançarinas a relação entre a RE e a RI, provavelmente, está ligada aos elementos anatômicos que restringem as respectivas rotações(1,2,7). O ganho da RE é feito à custa do alongamento da cápsula anterior e do ligamento iliofemoral, sendo também acompanhado por fortalecimento da musculatura rotadora externa, que é o principal elemento limitador da RI. Podemos esperar, então, redução da RI quando há fortalecimento da musculatura rotadora externa.
As diferenças dos valores entre bailarinas e grupo-contro-le devem estar relacionadas às partes moles(1,2,7). Outro fator a ser considerado é que as bailarinas de nossa série podem estar naturalmente selecionadas por uma predisposição à rotação externa. Isso poderia explicar em parte a grande diferença entre as rotações internas e externas das bailarinas e do grupo-controle no grupo 4, no qual as bailarinas em nível de aperfeiçoamento devem, inclusive, ter aptidão natural para a dança.
Portanto, nosso estudo demonstra que o balé clássico praticado por esse método pode levar a alterações progressivas dos movimentos rotacionais das articulações coxofemorais, ou seja, aumento da rotação externa e diminuição da rotação interna. A comparação dos movimentos rotacionais dos quadris de bailarinas com o grupo-controle demonstra que essas rotações são significativamente diferentes. As bailarinas apresentam rotações internas menores e rotações externas maiores. Nos primeiros anos de balé não existe modificação significativa das rotações externas dos quadris.
REFERÊNCIAS
Bauman, P.A., Singson, R. & Hamilton, W.G.: Femoral neck anteversion in ballerinas. Clin Orthop 302: 57-63, 1994.
Cahalan, T.D., Johnson, M.E., Liu, S. et al: Quantitative measurements of hip strength in different age groups. Clin Orthop 246: 136-145, 1989.
Fabry, G., MacEwen, G.D. & Shands Jr., A.R.: Torsion of the femur. A follow-up study in normal and abnormal conditions. J Bone Joint Surg
55: 1726-1738, 1973.
Gelberman, R.H., Cohen, M.S., Desai, S.S. et al: Femoral anteversion. A clinical assessment of idiopathic intoeing gait in children. J Bone Joint Surg [Br] 69: 75-79, 1987.
Goss, C.M.: “Junturas e ligamentos”, in Gray Anatomia, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1977. Cap. 5, p. 280-285.
Knittel, G. & Staheli, L.T.: The effectiveness of shoe modifications for intoeing. Orthop Clin North Am 7: 1019-1025, 1976.
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Letters to the editors. J Bone Joint Surg [Am] 75: 1110-1112, 1993.
Letters to the editors. J Bone Joint Surg [Am] 76: 312-313, 1994.
Fontes, M.: Curso de ballet, Royal Academy of Dancing, São Paulo, 1986. p. 116.
Murphy, S.B., Simon, S.R., Kijewski, P.K. et al: Femoral anteversion. J Bone Joint Surg [Am] 69: 1169-1176, 1987.
12. Oliveira, E.J.: Alterações nas fases da marcha causadas pela posição permanente em “en dehors” na bailarina clássica, Trabalho monográfico da Faculdade de Reabilitação de Tuiuti.
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Staheli, L.T.: Intoeing in children. Prim Care 5: 97-110, 1978.
Staheli, L.T.: Torsional deformity. Pediatr Clin North Am 24: 799-811, 1977.
Svenningsen, S., Terjesen, T., Auflem, M. et al: Hip rotation and in-toe-ing gait. A study of normal subjects from four years until adult age. Clin Orthop 251: 177-182, 1990.
Tachdjian, M.O.: “Deformidades torcionais (ou rotacionais) dos membros inferiores”, in Ortopedia pediátrica, São Paulo, Editora Manole, 1995. Cap. 7, p. 2807-2836.




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